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Entrevista: Luiz Otávio Fernandes de Andrade, presidente executivo da Unimed Federação Minas, faz uma análise sobre a saúde suplementar neste momento da pandemia, perspectivas futuras e papel do cooperativismo nesse contexto

13 de agosto/2020

Como o sr. enxerga os impactos, atuais e futuros, da pandemia na saúde suplementar e no sistema cooperativista?

Durante a pandemia o cenário é de um aumento da demanda em função do coronavírus e, paralelamente, uma redução da demanda relacionada a procedimentos eletivos que foram adiados. Do ponto de vista assistencial, o sistema Unimed está muito bem preparado porque conta com uma rede credenciada bem estruturada e robusta, tanto em Minas Gerais como no Brasil, e também com serviços próprios que acabam sendo um diferencial em relação às demais operadoras, permitindo que possamos atender a demanda que está colocada no momento.

Nos meses seguintes à pandemia, quando esses pacientes voltarem a se submeter aos procedimentos anteriormente adiados, haverá um forte aumento da demanda assistencial. Isto elevará o custo da assistência para patamares ainda de difícil previsão.

Além da questão assistencial, teremos um grande impacto relacionado ao desempenho da economia. Isso porque a saúde suplementar é intrinsecamente dependente da atividade econômica.

A grande maioria dos planos de saúde no Brasil são empresariais, contratados pelas empresas para seus colaboradores. Isso significa que, se as empresas precisam demitir em função da crise, isso impacta diretamente no número de planos contratados na saúde suplementar. Em resumo: uma desaceleração da economia resulta em perda de postos de trabalho e, consequentemente, em redução do número de usuários de planos de saúde. A inadimplência também é outro resultado esperado dessa desaceleração, em função do impacto sofrido no caixa das empresas e ela também afetará o caixa das operadoras.

Como atores relevantes que somos da saúde suplementar, o Sistema Unimed está dentro do mesmo barco. Também somos dependentes dos nossos contratantes e da atividade econômica para mantermos nossa capacidade de pagamento, de remuneração adequada dos nossos cooperados e da nossa rede de serviços própria e contratada.

 Quais as principais dificuldades que o setor vem enfrentando?

Num primeiro momento, durante a pandemia, destaco a dificuldade assistencial, ou seja, a disponibilidade de leitos ofertados para atendimento à demanda criada pela COVID.  E,  quando falo em leitos, me refiro não só à estrutura física adequada em um hospital, mas à necessidade também de uma equipe assistencial preparada para cuidar do paciente. Tanto médicos como equipes das áreas de apoio, como enfermeiros e outros profissionais especializados, estão se tornando o grande gargalo nos cuidados desse perfil de pacientes. Isso em decorrência do aumento da demanda como do próprio adoecimento desses profissionais.

Além disso, temos a questão dos EPIs e medicamentos, que foram um grande problema no começo da pandemia e que, no momento, estão bem equacionados, embora os preços tenham aumentado. De maneira geral, do ponto de vista assistencial, são essas as dificuldades.

Do ponto de vista financeiro, nós teremos num primeiro momento o impacto dos custos, relacionados à assistência aos pacientes infectados pela COVID. Isso será parcialmente compensado, inicialmente, pela redução do custo com os procedimentos eletivos adiados. Mais adiante, entretanto, à medida que houver uma retomada dos procedimentos eletivos, haverá, com certeza, um aumento significativo do custo para as operadoras.

É necessário, portanto, que as operadoras, sejam elas cooperativas ou não, tenham capacidade de caixa. Ou seja, é primordial que constituam novas reservas financeiras hoje para fazerem face à necessidade de capital que haverá num futuro próprio.

Que mudanças foram necessárias para enfrentar esse momento?  

A mudança mais significativa foi no modelo de atendimento. Se antes nosso foco maior eram os atendimentos programados, com a pandemia, tivemos que reforçar nossos serviços nas áreas de urgência e emergência e de internação hospitalar especializada. Afinal, a internação por COVID não é uma internação comum. Ela envolve necessidade de isolamento, uso intensivo de EPIs e recursos muito especializados como ventilação mecânica. Especialmente, ela gera demanda de profissionais treinados para fazer o atendimento a esses pacientes.

 Como o sr vê a importância do cooperativismo médico neste momento?

O cooperativismo tem uma característica única que é o fato de ser criado pelas pessoas e voltado para as pessoas. Então, quando nós falamos de cooperativas médicas, estamos falando de operadoras que viabilizam a presença da saúde suplementar em cidades de todo tipo de porte e capacidade econômica. Elas organizam o mercado privado da saúde nesses locais, geram trabalho e renda para o médico e garantem acesso e oferta de serviços à população.

A diferença das cooperativas para as empresas de medicina de grupo ou as seguradoras tradicionais é exatamente a ação local. O Sistema Unimed está presente em 95% dos municípios do Estado de Minas Gerais. Essa capilaridade é única do Sistema Unimed e só existe pela capacidade dos médicos de se organizarem em suas cooperativas em cada microrregião. Nesse sentido, num momento de crise, o cooperativismo se destaca como uma alternativa importante tanto para a assistência da população quanto para a garantia da renda do médico.

Como o sr vê o futuro do cooperativismo médico após a pandemia?  

Eu acho que a grande mudança será o impacto da tecnologia em nossas atividades. A telemedicina sai consolidada da pandemia como uma alternativa consistente e com boas propostas do ponto de vista de qualidade de assistência aos usuários.

Ela vai se inserir na vida da população e, portanto, obrigatoriamente, vai ter que se inserir na vida do médico, na vida das cooperativas, na vida do sistema de saúde em geral, seja ele público ou privado. As cooperativas precisam acelerar esse processo de transformação visto que outras empresas de saúde estão já adiantadas com relação ao uso da tecnologia.

A telemedicina aumenta a capacidade de levarmos a atenção médica a um número maior de pessoas. Então, existe a possibilidade da abertura de um novo mercado para as nossas cooperativas, com novas oportunidades de trabalho e renda para o médico.

 Resta entender esse novo cenário e qual a dinâmica da atuação do médico dentro dessa realidade. Fundamental é manter e, se possível, elevar sua remuneração a partir da popularização do acesso decorrente da telemedicina e no crescimento na adesão ao serviço.Vamos precisar de muita sabedoria para equilibrar o modelo tradicional de oferta de serviços de saúde com esse novo modelo.

Do ponto de vista do cooperativismo, voltamos um pouco a viver aquela situação que gerou a criação do Sistema Unimed, que foram novos entrantes no sistema de saúde se organizando para intermediar o trabalho do médico. As cooperativas surgiram para que essa intermediação gerasse resultados para os próprios médicos e não para os investidores e especuladores. As cooperativas são o braço da saúde suplementar da categoria médica, e hoje enfrentam enorme desafio, representado por uma nova concorrência, capitalizada em bolsa e que, frequentemente, precariza o trabalho médico.

Essa competição acirrada sempre pressionará os preços para baixo. Vamos precisar de muita criatividade e determinação para que continuemos exercendo o nosso papel de garantir a melhor remuneração possível para os médicos cooperados e a melhor assistência médica para a população por nós atendida.