O Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), representado pelo diretor de Mobilização, Cristiano Maciel, e pelo diretor de Campanhas e conselheiro do CRM-MG, Samuel Pires, participou nesta quinta-feira, 9 de julho, de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para discutir a nova plataforma de regulação de leitos hospitalares do estado, a Central de Operações para Regulação Estadual (Core Saúde MG), que substituiu o antigo sistema SUSFácil.
A reunião, realizada pela Comissão de Participação Popular e solicitada pelos deputados Lucas Lasmar e Doutor Jean Freire, debateu os graves impactos e as falhas técnicas que a implementação abrupta da nova ferramenta tem causado ao Sistema Único de Saúde (SUS) no estado.

Sinmed-MG aponta falta de planejamento e critica dispensa de médicos especialistas
Durante sua fala na audiência, o diretor de Mobilização do Sinmed-MG, Cristiano Maciel, alertou que a transição para a plataforma baseada em inteligência artificial foi feita de forma precipitada e sem um cronograma gradual. O diretor destacou que o governo desativou o SUSFácil e dispensou cerca de 150 médicos efetivos, concursados e de carreira, que atuavam nas centrais regionais ou em home office como autoridades sanitárias de grande experiência na área de regulação.

Em contrapartida, o estado passou a contratar profissionais por meio de empresas parceiras e consórcios de saúde, adotando um modelo de precarização e “pejotização”.
“Respeitamos os jovens recém-formados e os médicos que estão ali trabalhando, mas esse não é o formato que o sindicato defende. Esse tipo de cargo tem uma importância estratégica e de muita responsabilidade, exigindo experiência e tempo de atuação na área de saúde”, pontuou Maciel.
O diretor defendeu que o governo deveria ter mantido os médicos experientes e reforçado as escalas com novas contratações de servidores efetivos. Para o sindicato, a alta rotatividade, a falta de treinamento adequado dos novos contratados e a ausência do sistema antigo durante o período de transição expõem os pacientes e a rede de saúde a sérios riscos.
Alerta contra o fechamento de serviços essenciais e o desmonte da rede estadual
Cristiano Maciel também contextualizou que a pressa na implementação do Core Saúde MG se soma a outros erros recentes da gestão estadual, como o fechamento do Hospital Galba Velloso e, mais recentemente, do Hospital Maria Amélia Lins (HML). Segundo o diretor do Sinmed-MG, os serviços dessas unidades ainda não foram totalmente absorvidos pela rede, o que tem gerado desassistência, aumento nas filas de cirurgias e desconsideração com o trabalho dos profissionais.
O diretor aproveitou o espaço para emitir um alerta urgente sobre o projeto do futuro Hospital Padre Eustáquio, previsto para iniciar as atividades após 2030, que planeja fechar quatro hospitais da rede, incluindo o Hospital Infantil João Paulo II.
“O maior exemplo do risco desse processo é o pronto atendimento do Hospital João Paulo II, que atende mais de 50 mil crianças por ano e é referência no estado. Até o momento, ele está sendo fechado e não foi contemplado no projeto do Hospital Padre Eustáquio”, advertiu o diretor.
O diretor Cristiano Maciel apontou que há ameaças reais de redução no número de leitos, salas de ambulatório, atendimento a doenças raras e nas vagas de residência médica. Como conclusão, o Sinmed-MG defendeu que a gestão desses serviços estratégicos deve ser mantida pela própria Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) e pelo estado, com participação do controle social dos conselhos de saúde, e que a equipe médica seja recomposta por meio de concurso público, e não por terceirizações.
Relatos de falhas e posicionamento do governo e entidades
A audiência também foi marcada por depoimentos comoventes de familiares de pacientes que faleceram aguardando regulação no novo sistema, além de denúncias apresentadas pelos deputados Lucas Lasmar, que criticou o investimento de R$ 23 milhões em uma plataforma implantada sem testes prévios, e Doutor Jean Freire, que enumerou casos de óbitos e longas esperas por leitos de UTI nas regiões do Vale do Jequitinhonha e Mucuri.
Por outro lado, o governo estadual defendeu a modernização. A secretária-adjunta da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), Poliana Cardoso Lopes, e o coordenador Estadual de Regulação de Leitos, Luidy Luciano Cardoso, argumentaram que o Core Saúde MG permite o acompanhamento em tempo real e traz mais assertividade que o SUSFácil, embora tenham reconhecido a necessidade de ampliar o diálogo e oferecer capacitação constante aos profissionais reguladores.
A promotora Josely Ramos Pontes, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), e a coordenadora da Central de Regulação de Leitos da Prefeitura de Belo Horizonte, Marcela Nunes Silvério Pimenta, observaram que a implantação deveria ter sido gradativa, a começar pelas cirurgias eletivas, para não colocar a urgência em risco. A presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Aparecida Machado, também classificou a implementação como prematura, enumerando queixas recebidas pelo órgão de controle, como falhas na migração de dados, leitos inexistentes e demora no atendimento telefônico da central.
O grande aprendizado do processo do CORE
O grande aprendizado deste processo do CORE é que não se deve fazer processos de troca de sistema ou mudança, como vai ser o caso do Hospital Padre Eustáquio, de forma precipitada e sem discussão com as entidades e com a sociedade através do controle social.
Diante dessa realidade, o Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG) está iniciando uma campanha para que o Hospital Padre Eustáquio não repita esses vários erros. Explicar que essa campanha começa hoje mesmo, dia 10 de julho, com uma reunião no Hospital Infantil João Paulo II, reunindo a equipe da unidade, profissionais de outras áreas e outros sindicatos, articulando um movimento firme para alertar a Fhemig sobre a gravidade da situação.
Diante dessa realidade, o Sinmed-MG inicia hoje (10 de julho) uma campanha para que o Hospital Padre Eustáquio não repita esses graves erros.
A mobilização começa com uma reunião no Hospital Infantil João Paulo II, que reunirá a equipe da unidade, profissionais de outras áreas e demais sindicatos. O objetivo é articular um movimento firme para alertar a Fhemig sobre a gravidade da situação.
Fotos: Alexandre Netto