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Publicado em 26 de janeiro de 2026
Por André Christiano dos Santos, diretor-Presidente do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG)
A divulgação dos resultados da primeira edição do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (ENAMED) pelo Ministério da Educação (MEC), em janeiro de 2026, reforçou uma grande preocupação para a medicina, mostrando dados alarmantes. Dos 351 cursos de medicina avaliados, 30% deles apresentaram desempenho insatisfatório. Em termos práticos, isso significa que um terço dos médicos formados no país, hoje, não possui condições técnicas suficientes para o exercício pleno da profissão.
Há muitos anos, a abertura indiscriminada de escolas médicas, muitas delas sem a devida qualidade em termos de infraestrutura e currículo tem levado a uma grande preocupação tanto das entidades médicas como da sociedade em geral. Existe um aumento significativo de acusações de erro médico e é absolutamente legítima a preocupação com a qualidade do ensino médico.
Escolas médicas têm sido abertas sem a devida fiscalização levando a sociedade a discutir soluções para essa situação. O Sindicato dos Médicos de Minas Gerais e as demais entidades médicas têm lutado em todas as instâncias para que todas as escolas médicas tenham a necessária qualidade.
O que vemos atualmente é o reflexo de uma política que priorizou o lucro de grandes grupos educacionais em detrimento da qualidade assistencial. No ranking mundial, o Brasil é o segundo país com o maior número de escolas médicas no mundo, perdendo apenas para a Índia, que possui uma população sete vezes maior. Enquanto nos Estados Unidos há uma escola médica para cada 1,8 milhão de habitantes, no Brasil, essa proporção cai drasticamente para cerca de uma escola para cada 600 mil pessoas.
Em Minas Gerais, o estado contava com 52 escolas médicas (segundo dados da Demografia Médica 2025), muitas delas localizadas em municípios que não possuem a infraestrutura hospitalar necessária para um internato de qualidade. No ano 2000 eram apenas 12 escolas médicas no Estado, ou seja, foram abertas 40 novas escolas em 25 anos. O resultado dessa conta não fecha: mensalidades que ultrapassam os 10 mil reais para entregar um ensino “nota 2 em 5”.
O MEC concedeu 30 dias para que os 99 cursos que não alcançaram a nota mínima apresentem defesa antes de sanções como a suspensão do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES), restrição ao aumento ou redução de vagas. No entanto, acreditamos que as medidas, embora importante, ainda são insuficientes. É preciso restringir duramente as escolas de pior avaliação que não apresentarem melhorias intensas e rápidas, e é necessário um monitoramento contínuo e rigoroso. Não podemos brincar com a vida humana.
Essa realidade traz um impacto tridimensional e perverso. Para o médico recém-formado que sai da faculdade carregando dívidas astronômicas e uma formação precária, ficando muito mais suscetível a piores condições de trabalho, além de erros involuntários e processos por falta de competência técnica que a escola não lhe proveu. Para a categoria médica, a inundação do mercado por profissionais sem a qualificação mínima e endividados favorece a precarização do trabalho médico, a redução de honorários e perda da credibilidade histórica da nossa profissão.
Entretanto, o ponto mais crítico fica para a população. A saúde é um direito constitucional, mas a assistência digna está sendo colocada em risco. A oferta intensiva de profissionais menos qualificados associada a modelos de gestão predatórios tem criado o cenário de “médico ruim para pobre”, como expressou em entrevista imprudentemente franca o prefeito de Goiânia. O cidadão vai ao posto de saúde ou ao hospital sem saber se o profissional à sua frente teve acesso a um hospital-escola de verdade ou se apenas assistiu a aulas teóricas e alguma prática mal simulada.
Da parte de nossas entidades médicas, com destaque para os sindicatos, é imprescindível estarmos atentos e cada vez mais próximos dos estudantes de medicina. O Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG) tem se posicionado como parceiro dos acadêmicos e jovens médicos para acolhê-los em seus primeiros passos na profissão e compreender de perto como tem sido conduzida essa formação.
Existem dois projetos tramitando no Congresso Nacional que tratam da avaliação do estudante de Medicina antes de receber o registro no CRM. Um dos projetos propõe a realização de um exame de proficiência ao término da faculdade e o graduando só receberia o registro no CRM se aprovado. O segundo projeto propõe uma avaliação seriada do estudante ao longo da sua formação, o que permitiria a correção de rumos caso o resultado fosse insuficiente. Minha avaliação é que a segunda proposta parece ser mais urgente. É importante que não seja o estudante o único a ser punido. As faculdades precisam ser responsabilizadas pelo ensino que fornecem (ou vendem). Comparar um exame de proficiência na Medicina à prova realizada pela OAB para o ingresso na advocacia pode ser um equívoco: Bacharéis em Direito não precisam necessariamente do registro na OAB para trabalharem, existem outras alternativas de atuação; já para o Bacharel em medicina que não for aprovado no exame, que opção restará? São muitas as perguntas e cada caminho apresentará novos desafios.
O Sinmed-MG reitera a urgência de repensar a abertura irresponsável de novas vagas em medicina para garantir capacidade de formar médicos com eficácia. A medicina não pode ser tratada como uma mercadoria de balcão. O resultado do ENAMED é o sinal de alerta que faltava. Agora, o que se espera é a coragem das autoridades para extirpar esse mal antes que o descrédito e o erro médico se tornem a regra, e não a exceção.